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Amigas de Luta

Voluntariado

Psicóloga voluntária no atendimento a vítima de violência

O que muda no atendimento psicológico de mulher em situação de violência doméstica, o que o CFP exige do trabalho gratuito e como funciona o voluntariado.

Ela não chega dizendo "sofro violência doméstica". Chega dizendo que anda ansiosa, que não dorme, que está estranha com os filhos, que acha que o problema é ela. A palavra violência aparece na quarta sessão, se aparecer.

Quem atende mulher em situação de violência sabe que o trabalho começa muito antes de existir um nome para o que está acontecendo. E sabe também que esse atendimento tem exigências técnicas que não são as de uma clínica comum.

O que a pesquisa mostra sobre quem procura ajuda

A pesquisa Visível e Invisível, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública com o Datafolha, mostrou em sua 5ª edição, de 2025, que 47% das mulheres não fizeram nada depois da agressão mais grave que sofreram no ano. É a reação mais comum desde 2017.

A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado, de 2025, mostra para onde vai quem faz alguma coisa: 52% procuram uma amiga. Só 11% ligam para o 180 e 28% chegam à delegacia da mulher.

Ou seja: o primeiro atendimento quase nunca é profissional. Quando ele finalmente é, a mulher já tentou de tudo, já foi desacreditada uma vez e já ouviu que estava exagerando.

O que muda tecnicamente nesse atendimento

O tempo não é o da clínica

O ciclo da violência tem uma fase de reconciliação que confunde quem olha de fora e destrói quem está dentro. A mulher sai, volta, sai de novo. Contar quantas vezes ela voltou é a leitura errada. Escrevemos sobre esse ciclo em ele bateu e pediu perdão.

Empurrar a denúncia costuma custar a paciente

A pressa da profissional em ver a mulher denunciar, sair de casa e romper é compreensível e frequentemente contraproducente. Quem sai sem plano sai para o risco maior: a separação é o momento de pico da letalidade. O trabalho é ajudar a construir condição de saída, não cobrar a saída.

A avaliação de risco entra na sala

Não como formulário policial, mas como escuta orientada: acesso a arma, ameaça de morte, ciúme com perseguição, estrangulamento anterior, gravidez, ameaça de suicídio dele. São marcadores que mudam a conduta e podem mudar o encaminhamento no mesmo dia.

O número não é abstrato

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública registrou 1.571 feminicídios em 2025, o maior número já registrado. Setenta dessas mulheres foram mortas com medida protetiva ativa. O papel sozinho não protege, e a mulher sentada na sua frente muitas vezes já sabe disso melhor do que qualquer um.

O que o conselho exige de você

O Código de Ética Profissional do Psicólogo já rege o essencial: assumir responsabilidade apenas por atividade para a qual se está tecnicamente habilitada, garantir a qualidade do serviço e respeitar o sigilo profissional para proteger a intimidade de quem é atendido. O sigilo tem limites, e conhecer esses limites antes de precisar deles é parte do preparo para atender aqui.

Sobre atendimento a distância, vale a Resolução CFP nº 11, de 2018, que trata dos serviços psicológicos prestados por meio de tecnologias de comunicação a distância. Como boa parte do atendimento da rede é remoto, ela é a norma que mais aparece no dia a dia.

Sobre trabalho gratuito, o Conselho Federal de Psicologia já publicou nota orientativa sobre trabalho voluntário e publicidade em Psicologia. O ponto central é simples e vale sempre: se o serviço é gratuito, ele precisa ter uma proposta com início, meio e fim, ou garantir a gratuidade durante todo o período do atendimento. Não se começa de graça para cobrar depois, e não se interrompe no meio porque a agenda apertou.

O que a lei do voluntariado exige

A Lei 9.608, de 1998 define serviço voluntário como atividade não remunerada prestada por pessoa física a instituição privada sem fins lucrativos. Ele não gera vínculo empregatício nem obrigação de natureza trabalhista ou previdenciária, e deve ser exercido mediante termo de adesão com o objeto e as condições escritos.

Na prática, esse termo é onde fica registrado quantas horas você combinou, em que formato e como se encerra a participação sem deixar ninguém no meio do caminho.

Como funciona na Amigas de Luta

Os casos chegam pela coordenação, com contexto levantado, e são oferecidos antes. Você aceita ou não aceita. Não existe plantão, não existe fila aberta e ninguém tem o seu telefone pessoal.

O compromisso mínimo é de duas horas por mês, e isso é de propósito. Consistência pequena vale mais do que disponibilidade grande que evapora. Interromper um acompanhamento no meio é, para essa mulher, mais uma pessoa que sumiu.

Antes do primeiro encaminhamento tem verificação do registro no CRP, conversa com a coordenação e formação em atendimento humanizado. A verificação existe porque quem quer chegar perto dessas mulheres também sabe dizer que é profissional de saúde.

O que não pedimos de você

Não pedimos disponibilidade de emergência, nem atendimento de crise fora do horário combinado. Em risco imediato, o caminho é 190. Para orientação 24 horas, 180. Para dor emocional aguda, 188.

Também não pedimos que você trabalhe de graça para sempre. A rede busca patrocínio justamente para transformar frentes de atendimento em trabalho remunerado. Enquanto isso não existe, quem sustenta é voluntária, e a gente prefere dizer isso do que fingir que é outra coisa.

Perguntas frequentes

Preciso de formação específica em violência de gênero?

Não para se cadastrar. Quem entra passa por formação em atendimento humanizado antes do primeiro encaminhamento. O que se pede é registro ativo no CRP e a disposição de estudar o assunto, que tem particularidades reais em avaliação de risco e em manejo do ciclo da violência.

Posso atender online?

Pode, e é o formato mais comum na rede. Vale a Resolução CFP nº 11, de 2018, sobre serviços psicológicos prestados por meio de tecnologias de comunicação a distância, incluindo o cadastro que ela exige para esse tipo de atendimento.

Atendimento voluntário pode virar atendimento pago depois?

Não dentro da rede. A orientação do Conselho Federal de Psicologia sobre trabalho voluntário é que o serviço gratuito tenha início, meio e fim definidos, ou garanta a gratuidade durante todo o período. Começar de graça para converter em paciente particular está fora.

Quantas horas por mês isso toma?

Você escolhe a faixa no cadastro, a partir de até duas horas por mês. A coordenação encaminha dentro do que foi combinado e cada caso é oferecido antes, nunca imposto.

Esse cadastro me dá acesso aos casos da rede?

Não. O cadastro é um pedido de contato que a coordenação lê e confere. Nenhum caso, nome ou mensagem de usuária fica visível a partir dele. O acesso vem depois, com conversa, verificação de registro e convite.

Atender como voluntária

A rede encaminha mulheres para advogadas, psicólogas e assistentes sociais voluntárias. Algumas horas por mês, casos que chegam com contexto e combinados antes. O cadastro não dá acesso a nada: a coordenação lê, confere o seu registro no conselho e conversa antes de qualquer atendimento.

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